segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Da minha angústia de mulher negra I

As pretas que conheço costumam dizer que tem medo de serem trocadas por mulheres brancas. Eu também tinha, até  minha namorada negra me trair com outra mulher negra. Desde dia em diante eu entendi que meu desejo é outro, meus medos são outros.
Meu medo é ser trocada. Ponto.
Não, eu não cresci me achando linda. Eu não cresci com o mundo me dizendo que eu era uma princesa que merecia o amor. Eu cresci tentando parecer com a princesa que merecia amor pelo simples fato de ser bela e encantadora. A parte do bela eu só conheci em 2012, o ano em que comecei a não me achar tão feia e às vezes até BO-NI-TA. Encantadora eu fui rebolando para ser, a duras penas. Me tornei mestra em agradar os outros. Eu agradeço e peço desculpas demais. Eu me modifico demais, eu cedo demais, eu perdoo e tolero mais do que posso para não perder as pessoas. As pessoas negras incluídas.
Se ela diz que sente atração pela amiga enquanto nosso relacionamento está fechado eu não faço uma cena na hora. Eu abro a relação porque sou muito generosa. Porque sou muito evoluída e muito militante. Sou um exemplo de feminista, sou cabeça aberta, sou uma preta odara. Peloamordedeusmeameenãomerejeite.
Eu preciso ser admirada. Eu preciso ser amada como uma mulher branca seria. Não falo só as brancas de desenho animado ou filme romântico. Nem daquelas dos livros, muito menos as brancas das novelas. Eu queria ser amada como minhas amigas brancas são. As que casam em lindas cerimônias com noivos ou noivas com cara de boboca no altar. Gente que discute desejo fora da relação com uma segurança absurda. Gente que admite ter ciúme, admite que têm desejos fora da relação, gente que come e caga normalmente. Mas sobretudo, gente que conhece um cuidado que eu não conheço.
A gente fala muito em afrocentralidade hoje (e eu agora não vou nem tangenciar o que penso sobre propositalmente, não interessa isso agora.).  Mas eu me pergunto se antes de nos atiramos em relações afrocentradas como solução para nossos problemas afetivos, não seria mais interessante conhecermos nossa forma de amar e receber amor. O que se espera de fato e por quê?
Eu estou falando do lugar de quem sofre, mas eu (claro) já estive no terrível lugar de quem faz sofrer. Eu me apaixonei por um cara (branco) enquanto estava vivendo meu relacionamento total open com a mina preta. Pense na confusão! Eu vacilei. E muito. Ela também. Ele também. Resumindo: Aprendi uma coisa muito importante sobre mim (será que sobre outras pretas também?). Às vezes, o simples fato de ser desejada por alguém nos desperta um interesse desvairado. “Alguém me quer, Jeová!!!!  Axé!!! Vou pegar também antes que desista!” É o último bote salva vidas do Titanic.
                Na minha cabeça as coisas funcionam mais ou menos assim: “Eu quero muito ser amada, idolatrada, salve, salve and quero que o ser amado só tenha olhos para mim. No entanto, se alguém me paquera eu não posso dizer não, afinal, é tão raro olharem para mim... Tô arrasando!”
                Durante um bom tempo  vivi relações abertas segundo as muitas cartilhas brancas, muitas vezes adaptadas para pretas, mas que no fim não me cabiam na pele.
                Falava-se de tudo: não ter ciúme, admitir ter ciúme, relações hétero, relações entre lésbicas, raça, peso, questão de classe, questão de gênero... Uma infinidade de textos sobre textos que diziam tudo, menos o que era preciso dizer.
                Eu não consigo amar de forma saudável, não consigo ser amada do jeito que quero. Só abri o relacionamento para satisfazer ao desejo dela. Para não ser traída, já sendo. Para ser algo próximo de admirável, logo amável.
                Apesar da raiva eu me lembro vez por outra que ela também é uma mulher negra. Ela sofre quase tudo que eu sofro e de formas muito parecidas. Ela reage ao mundo de um jeito parecido com o meu. Dizendo sim para tudo.

                A pergunta mágica é: O que se faz com isso?