As pretas que conheço costumam
dizer que tem medo de serem trocadas por mulheres brancas. Eu também tinha, até
minha namorada negra me trair com outra
mulher negra. Desde dia em diante eu entendi que meu desejo é outro, meus medos
são outros.
Meu medo é ser trocada. Ponto.
Não, eu não cresci me achando
linda. Eu não cresci com o mundo me dizendo que eu era uma princesa que merecia
o amor. Eu cresci tentando parecer com a princesa que merecia amor pelo simples
fato de ser bela e encantadora. A parte do bela eu só conheci em 2012, o ano em
que comecei a não me achar tão feia e às vezes até BO-NI-TA. Encantadora eu fui
rebolando para ser, a duras penas. Me tornei mestra em agradar os outros. Eu
agradeço e peço desculpas demais. Eu me modifico demais, eu cedo demais, eu
perdoo e tolero mais do que posso para não perder as pessoas. As pessoas negras
incluídas.
Se ela diz que sente atração pela
amiga enquanto nosso relacionamento está fechado eu não faço uma cena na hora.
Eu abro a relação porque sou muito generosa. Porque sou muito evoluída e muito
militante. Sou um exemplo de feminista, sou cabeça aberta, sou uma preta odara.
Peloamordedeusmeameenãomerejeite.
Eu preciso ser admirada. Eu
preciso ser amada como uma mulher branca seria. Não falo só as brancas de
desenho animado ou filme romântico. Nem daquelas dos livros, muito menos as
brancas das novelas. Eu queria ser amada como minhas amigas brancas são. As que
casam em lindas cerimônias com noivos ou noivas com cara de boboca no altar.
Gente que discute desejo fora da relação com uma segurança absurda. Gente que
admite ter ciúme, admite que têm desejos fora da relação, gente que come e caga
normalmente. Mas sobretudo, gente que conhece um cuidado que eu não conheço.
A gente fala muito em afrocentralidade
hoje (e eu agora não vou nem tangenciar o que penso sobre propositalmente, não
interessa isso agora.). Mas eu me
pergunto se antes de nos atiramos em relações afrocentradas como solução para
nossos problemas afetivos, não seria mais interessante conhecermos nossa forma
de amar e receber amor. O que se espera de fato e por quê?
Eu estou falando do lugar de quem
sofre, mas eu (claro) já estive no terrível lugar de quem faz sofrer. Eu me
apaixonei por um cara (branco) enquanto estava vivendo meu relacionamento total
open com a mina preta. Pense na confusão! Eu vacilei. E muito. Ela também. Ele
também. Resumindo: Aprendi uma coisa muito importante sobre mim (será que sobre
outras pretas também?). Às vezes, o simples fato de ser desejada por alguém nos
desperta um interesse desvairado. “Alguém me quer, Jeová!!!! Axé!!! Vou pegar também antes que desista!” É
o último bote salva vidas do Titanic.
Na
minha cabeça as coisas funcionam mais ou menos assim: “Eu quero muito ser
amada, idolatrada, salve, salve and quero que o ser amado só tenha olhos para mim.
No entanto, se alguém me paquera eu não posso dizer não, afinal, é tão raro
olharem para mim... Tô arrasando!”
Durante
um bom tempo vivi relações abertas
segundo as muitas cartilhas brancas, muitas vezes adaptadas para pretas, mas
que no fim não me cabiam na pele.
Falava-se
de tudo: não ter ciúme, admitir ter ciúme, relações hétero, relações entre
lésbicas, raça, peso, questão de classe, questão de gênero... Uma infinidade de
textos sobre textos que diziam tudo, menos o que era preciso dizer.
Eu não
consigo amar de forma saudável, não consigo ser amada do jeito que quero. Só
abri o relacionamento para satisfazer ao desejo dela. Para não ser traída, já
sendo. Para ser algo próximo de admirável, logo amável.
Apesar
da raiva eu me lembro vez por outra que ela também é uma mulher negra. Ela
sofre quase tudo que eu sofro e de formas muito parecidas. Ela reage ao mundo
de um jeito parecido com o meu. Dizendo sim para tudo.
A
pergunta mágica é: O que se faz com isso?