sexta-feira, 15 de abril de 2016

Julho de 2014. O oitavo dia.


Dias antes (já não sei mais quantos) eu havia perdido as chaves de casa. Era madrugada. Eu só tinha dois reais na bolsa e um lugar pra ir. Na chegada um soco. Alguém que eu amo não estava ali. Ela dopada não me reconheceu. Ninguém havia me chamado, ninguém havia me avisado. Talvez eu estivesse ocupada demais tentando deter o surto da nação.

Os dias passaram sem que eu percebesse. Eu não podia sair dali. Eu estava ocupada demais tentando deter o surto dela. E minhas lágrimas. Não havia tempo para chorar. "Segura a minha mão, fica comigo, sou eu." Os gritos dentro daquela casa não me deixavam ouvir que lá fora havia uma Copa, um protesto e tantas apostas, tantos indo embora também. 

Mas era nos olhos dela que eu procurava algum sentido. Ora eu era meu pai, ora nosso irmão. Às vezes eu era eu mesma, mas nos tempos em que brigávamos e nos ofendíamos como duas adolescentes tolas. 

Ela fugia de mim... Os olhos entregues à loucura. Nós todas entregues. Para onde ela vai quando isso chega? Volta, eu dizia. Ela não sabia voltar. Lembra do Nescau, lembra do "socorro, vovó?", ela não lembrou de nada. Só daquela briga, só do dia em que ela me fez chorar. 

Quando ela quebrou a porta eu não chorei, para ela não lembrar disso depois. Eu também não chorei quando ela mordeu meu ombro com toda força. Eu segurei firme em seu pulso para dar aquele remédio. Ela não queria tomar, eu não queria que ela tomasse. Logo ela era uma boneca, dopada, sem expressão nos olhos. Tão longe... Escuta, eu não quero fazer isso, me perdoa, eu disse. Dormimos pertinho dela todos os dias. E quando ela acorda gritando e socando tudo nós já estamos de pé. 

No oitavo dia ela acordou milagrosamente. Sem raiva, serena. Liguei a tv e vimos o jogo pelo qual os nossos estavam sendo presos. Eu não me importava... Ela estava lá e se lembrou de tudo. E chorou. E pediu um colo e um tempo. Um tratamento. 

Ela está bem agora, mas eu busco nos olhos dela a ampulheta que sinaliza que tudo vai começar outra vez. É uma questão de tempo... Logo ela irá embora de novo. Talvez agora eu vá com ela.