Houve um tempo em que eu escrevia para não sufocar. Eu não conseguia falar, eu sequer sabia que seria capaz de fazer isso um dia. Agora eu digo quase tudo, falo até demais. Mas as palavras fogem de mim, escapam displicentes pela minha boca e, insubordinadas, não atendem quando eu as chamo para o papel.
Minha dureza contaminou minha escrita. Não há mais lirismo na minha dor. Cada vez que falo me torno mais dura. E igualmente surdos os ouvidos se tornam. Entre não ser lida e não ser ouvida, a novidade única que surge é minha própria vergonha de pôr letra a letra na tela, no papel. E se falar não aplaca meu sufocamento (tantas vezes ate aumenta), se chorar não faz sentido e escrever já não consigo, onde me resta procurar o ar que me falta?
Existe no palco um roteiro a seguir. Preciso dizer as palavras de outras pessoas, que igualmente na letra salvam-se do próprio sufocamento. Deve ser bonito quando você se liberta na voz de um estranho. Eu poderia ser cantora e cuspir minha angústia escrita por outras pessoas. Ainda que ninguém soubesse, eu saberia e gritaria a plenos pulmões a minha mágoa e minha festa composta por outrém, fingindo não ser minha dor a dor que só minha é.