Há muitos e muitos anos houve um grande abalo sísmico em uma terra distante daqui. Todas as coisas que se conheciam até então mudaram de lugar. Países inteiros, oceanos congelados e bichos de todos os tipos se amontoavam em lugares completamente distantes de sua origem.
Perdidos, confusos e com um mundo a redescobrir em pouco tempo, um uaçá e uma quilópode um dia se encontraram. Ela, com seus 50 pares de pernas, corria sinuosa procurando alguma pedra úmida o bastante para construir sua nova casa. Sem prestar muita atenção, passou por cima da carapaça gelada do uaçá e pensou ser uma pedra lisa para morar.
O uaçá, percebendo o movimento inquieto na capa, perguntou quem se atrevia a perambular na sua casca. Não procuro nada, além de um lugar para dormir, ela respondeu.
Por falta de coisa melhor para fazer, o uaçá decidiu acompanhá-la em sua busca. É que noites após abalos sísmicos costumam ser solitárias e tediosas.
Formaram uma estranha dupla ao longo do caminho. Ele com seu andar hesitante, ora para os lados, ora para trás. Ela correndo nunca em linha reta, parando subitamente em curvas aleatórias. Levaram 8 horas para percorrer juntos o caminho que equivaleria a um passo humano.
E assim passaram horas e dias. Ao sentir os primeiros sinais de exaustão, a quilópode teve vontade de pedir para descansar sob a carapaça do uaçá, mas olhando ao redor não conseguia encontrá-lo. Quis chamar, mas percebeu que não seria muito útil. Não demorou para que ela se perguntasse em que parte do caminho ele havia se perdido. Ou seria ela que teria errado o trajeto? Lembrou que nunca combinaram um trajeto. Pensou em voltar, mas não lembrava o caminho. Esperou, esperou. Outros bichos passavam por ela, nunca o uaçá. Perguntou aflita se alguém o havia visto ou devorado.
Percebendo que seria inútil encontrar o uaçá, reuniu todos os seus pares de pernas e seguiu sozinha.
Em algum lugar o uaçá pensava por que tinha se oferecido para ir com aquela estranha e por que nunca conseguiu sair do mesmo lugar, aquele primeiro passo humano.