Hoje eu descobri que tenho 28 anos, 3 meses e 11 dias. Na sala de espera do hospital fiquei olhando os números na pulseirinha. Achei tão melancólico...
Fiquei ali distraindo a dor tentando lembrar o que tinha acontecido nesses tais 3 meses e 11 dias e administrando as mensagens recentes do whatsapp quando entra uma médica confusa para me atender, quase tão assustada quanto eu. Quis tranquilizá-la, dizer que aquilo não era nada de mais e eu só queria um remédio. Não, ela não confiou que eu conhecesse tão bem assim meu corpo a ponto de ajudá-la a dar um diagnóstico.
Mais duas médicas. Agora eram 3, como os meses que eu estava tentando recordar. Três mulheres brancas apertando sem muito cuidado o que me doía tanto. Familiar demais pro meu gosto. Estranhando meu cabelo, como se eu fosse uma atração de algum museu de antropologia. Inventavam mil possibilidades. Eu tentava dizer o que tinha acontecido, mas elas simplesmente não ouviam. Ao menos eu gemia alto porque finalmente minha dor era física. Ganhei uma licença para expressar meu incômodo.
Enquanto eu caminhava até a sala de medicação procurava alguém como eu. Hospital particular. Nem pacientes, nem enfermeiras, nem auxiliares, tampouco médicas negras... Depois das picadas de agulha, do frio, do enjôo, do soro, do longo tempo, caminhei até a última sala. No caminho cruzei com uma moça de uniforme diferente. Tranças tão longas e vermelhas quanto as minhas, pele negra como a minha. Sorrimos uma para outra. Olhei para trás, ela entrou na sala de material de limpeza ou algo assim.
Lembrei o que fiz nos últimos 3 meses e 11 dias (agora 12)...