domingo, 9 de agosto de 2015

28a3m11d

Hoje eu descobri que tenho 28 anos, 3 meses e 11 dias. Na sala de espera do hospital fiquei olhando os números na pulseirinha. Achei tão melancólico...

Fiquei ali distraindo a dor tentando  lembrar o que tinha acontecido nesses tais 3 meses e 11 dias e administrando as mensagens recentes do whatsapp  quando entra uma médica confusa para me atender, quase tão assustada quanto eu. Quis tranquilizá-la, dizer que aquilo não era nada de mais e eu só queria um remédio. Não, ela não confiou que eu conhecesse tão bem assim meu corpo a ponto de ajudá-la a dar um diagnóstico.

Mais duas médicas. Agora eram 3, como os meses que eu  estava tentando  recordar. Três mulheres brancas apertando sem muito cuidado o que me doía tanto. Familiar demais pro meu gosto. Estranhando meu cabelo, como se eu fosse uma atração de algum museu de antropologia. Inventavam mil possibilidades. Eu tentava dizer o que tinha acontecido, mas elas simplesmente não ouviam. Ao menos eu gemia alto porque finalmente minha dor era física. Ganhei uma licença para expressar meu incômodo.

Enquanto eu caminhava até a sala de medicação procurava alguém como eu. Hospital particular. Nem pacientes, nem enfermeiras, nem auxiliares, tampouco médicas negras... Depois das picadas de agulha, do frio, do enjôo, do soro, do longo tempo, caminhei até a última sala. No caminho cruzei com uma moça de uniforme diferente. Tranças tão longas e vermelhas quanto as minhas, pele negra como a minha. Sorrimos uma para outra. Olhei para trás, ela entrou na sala de material de limpeza ou algo assim.

Lembrei o que fiz nos últimos 3 meses e 11 dias (agora 12)...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

    Brasília deveria se chamar Belo Horizonte. Não é? Combina mais. Tudo aqui é horizonte. E meus olhos, que são desses moleques que gostam de fugir, aqui correm livres.

     Desculpem os ultra sinceros, mas não gosto de olho no olho não. Conversa boa é de olhos que passeiam sem ter onde esbarrar. O pensamento chega e vai embora e o que tem que ficar fica. E pronto!

     Natureza não me faz muito a cabeça também não. Desculpem os naturistas. Eu gosto de concreto, aço e pixação. Gosto da brincadeira entre mato e asfalto, gosto de plantas de prédios e plantas que brotam no meio dos prédios. Gosto de ver gente, de longe. De perto é meio chato.
   
    Hoje me secou a garganta. Tive uma crise alérgica daquelas. Me deram um remédio, que eu deveria lembrar o nome. Como qualquer anti alérgico, me deu muito sono. Eu fui assim, meio dopada, com a cabeça grudada na janela, correndo a cidade plana e alta, nas muitas curvas das estradas. Adormeci acreditando que se eu abrisse a janela e colocasse os braços bem esticados lá fora, conseguiria pegar uma nuvem para mim. Era uma nuvem gigante, tão pertinho como a estrela que eu vi agora.

  Nunca havia reparado no formato das estrelas. É um tapete de pequenas cruzes. Hoje eu achei que uma ia cair no meu colo. Estiquei a língua para sentir o gosto dela. Acho que estrelas são frias. Será que é por causa da música? "Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel" Não sei, mas hoje achei que era gelada, como um sorvete brilhante.


   Aqui eu corro. Tenho certeza que se eu correr muito em linha reta não vou bater em nadinha, nadinha. Entregue ao horizonte eu correria até desaparecer no oco do mundo. E nem eu mesma ia me achar. Meu corpo seria engolido pela linha que separa céu e terra. E eu não seria nem da terra, nem do céu. Eu seria ventania.

Brasília tem esse hábito de me encantar. Belo horizonte.