quarta-feira, 6 de maio de 2015

poeira imaginária

Era quase um delito. Ele percorria meu corpo sem certeza como se não soubesse onde tocar. Não só. Como se tivesse medo de tocar. Mordia e apertava com toda força como quem não aprendeu a ser suave, como alguém para quem a suavidade não sorriu.

Deixei que o fizesse todas as vezes. Gostava de encontrar as marcas dele nas pernas, entre os seios, na barriga.

Menti sobre a suavidade dele. Houve uma vez, uma única vez...
Nem com a boca, nem com as mãos. Uma marca preta esferográfica. A mais bonita, a mais efêmera.

Não quis apagar. Tinha medo que  a espuma levasse também a expressão terna e contente nos olhos dele e seu brilho amendoado. Contentamento e desejo. Um jeito inocente, quase infantil, de dizer o que estava escrito.   Acho que ele chorou, eu não. Eu não queria molhar aquelas letras.  Temia que se eu apagasse aquelas duas palavras a tarde onde nos debruçamos desmoronaria. Poeira imaginária.

Eu sabia que seria assim. E assim foi. Precisei lavar meu corpo. Pernas. Seios. Barriga... Apagou. E assim foi.