sábado, 30 de maio de 2015

Dimanche Sourire



Ainda uso a mesma desculpa. "Não posso fazer agora, temos estreia". Antes eu pensava, eu dizia que era minha razão. Dizia que por isso eu respirava. Talvez seja só vaidade e isso é triste. Então eu abri os olhos e desviei do caminhão. "Você quer morrer, sua louca?" "Sim, mas não posso, tenho estreia."  Não, eu não respondi. Eu terminei de atravessar correndo, cabeça baixa, evitando os olhares. "Você está bem, menina?" "Foi sem querer, eu não vi." Não vi porque fechei os olhos e apertei o passo. Não vi porque eu queria morrer sem querer. Não vi porque queria fazer de alguém que não conheço meu assassino e poupar aos que eu conheço da culpa. Eu sou egoísta e mesquinha, eis uma das razões que eu tinha. Mas isso eu não respondi.




quarta-feira, 6 de maio de 2015

poeira imaginária

Era quase um delito. Ele percorria meu corpo sem certeza como se não soubesse onde tocar. Não só. Como se tivesse medo de tocar. Mordia e apertava com toda força como quem não aprendeu a ser suave, como alguém para quem a suavidade não sorriu.

Deixei que o fizesse todas as vezes. Gostava de encontrar as marcas dele nas pernas, entre os seios, na barriga.

Menti sobre a suavidade dele. Houve uma vez, uma única vez...
Nem com a boca, nem com as mãos. Uma marca preta esferográfica. A mais bonita, a mais efêmera.

Não quis apagar. Tinha medo que  a espuma levasse também a expressão terna e contente nos olhos dele e seu brilho amendoado. Contentamento e desejo. Um jeito inocente, quase infantil, de dizer o que estava escrito.   Acho que ele chorou, eu não. Eu não queria molhar aquelas letras.  Temia que se eu apagasse aquelas duas palavras a tarde onde nos debruçamos desmoronaria. Poeira imaginária.

Eu sabia que seria assim. E assim foi. Precisei lavar meu corpo. Pernas. Seios. Barriga... Apagou. E assim foi.

expresso

Tem um "não" queimando minha língua. Tem uma represa na garganta, mais uma vez e outra e outra... Essa estranha familiar certeza.

Se tudo fugisse das cordas da minha garganta eu teria esse ardor aplacado na língua? Eu voltaria a sentir o amargo doce das outras palavras escondidas?  Esse "não" pousado no piso da boca deixaria de inflamar?