segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A quilópode e o uaçá

Há muitos e muitos anos houve um grande abalo sísmico em uma terra distante daqui. Todas as coisas que se conheciam até então mudaram de lugar. Países inteiros, oceanos congelados e bichos de todos os tipos se amontoavam em lugares completamente distantes de sua origem.

Perdidos, confusos e com um mundo a redescobrir em pouco tempo, um uaçá e uma quilópode um dia se encontraram. Ela, com seus 50 pares de pernas, corria sinuosa procurando alguma pedra úmida o bastante para construir sua nova casa. Sem prestar muita atenção, passou por cima da carapaça gelada do uaçá e pensou ser uma pedra lisa  para morar.

O uaçá, percebendo o movimento inquieto na capa, perguntou quem se atrevia a perambular na sua casca. Não procuro nada, além de um lugar para dormir, ela respondeu.

Por falta de coisa melhor para fazer, o uaçá decidiu acompanhá-la em sua busca. É que noites após abalos sísmicos costumam ser solitárias e tediosas.

 Formaram uma estranha dupla ao longo do caminho. Ele com seu andar hesitante, ora para os lados, ora para trás. Ela correndo nunca em linha reta, parando subitamente em curvas aleatórias. Levaram 8 horas para percorrer juntos o caminho que equivaleria a um passo humano.

E assim passaram horas e dias. Ao sentir os primeiros sinais de exaustão, a quilópode teve vontade de pedir para descansar sob a carapaça do uaçá, mas olhando ao redor não conseguia encontrá-lo. Quis chamar, mas percebeu que não seria muito útil. Não demorou para que ela se perguntasse em que parte do caminho ele havia se perdido. Ou seria ela que teria errado o trajeto? Lembrou que nunca combinaram um trajeto. Pensou em voltar, mas não lembrava o caminho. Esperou, esperou. Outros bichos passavam por ela, nunca o uaçá. Perguntou aflita se alguém o havia visto ou devorado.

Percebendo que seria inútil encontrar o uaçá, reuniu todos os seus pares de pernas e seguiu sozinha.


Em algum lugar o uaçá pensava por que tinha se oferecido para ir com aquela estranha e por que nunca conseguiu sair do mesmo lugar, aquele primeiro passo humano.

domingo, 9 de agosto de 2015

28a3m11d

Hoje eu descobri que tenho 28 anos, 3 meses e 11 dias. Na sala de espera do hospital fiquei olhando os números na pulseirinha. Achei tão melancólico...

Fiquei ali distraindo a dor tentando  lembrar o que tinha acontecido nesses tais 3 meses e 11 dias e administrando as mensagens recentes do whatsapp  quando entra uma médica confusa para me atender, quase tão assustada quanto eu. Quis tranquilizá-la, dizer que aquilo não era nada de mais e eu só queria um remédio. Não, ela não confiou que eu conhecesse tão bem assim meu corpo a ponto de ajudá-la a dar um diagnóstico.

Mais duas médicas. Agora eram 3, como os meses que eu  estava tentando  recordar. Três mulheres brancas apertando sem muito cuidado o que me doía tanto. Familiar demais pro meu gosto. Estranhando meu cabelo, como se eu fosse uma atração de algum museu de antropologia. Inventavam mil possibilidades. Eu tentava dizer o que tinha acontecido, mas elas simplesmente não ouviam. Ao menos eu gemia alto porque finalmente minha dor era física. Ganhei uma licença para expressar meu incômodo.

Enquanto eu caminhava até a sala de medicação procurava alguém como eu. Hospital particular. Nem pacientes, nem enfermeiras, nem auxiliares, tampouco médicas negras... Depois das picadas de agulha, do frio, do enjôo, do soro, do longo tempo, caminhei até a última sala. No caminho cruzei com uma moça de uniforme diferente. Tranças tão longas e vermelhas quanto as minhas, pele negra como a minha. Sorrimos uma para outra. Olhei para trás, ela entrou na sala de material de limpeza ou algo assim.

Lembrei o que fiz nos últimos 3 meses e 11 dias (agora 12)...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

    Brasília deveria se chamar Belo Horizonte. Não é? Combina mais. Tudo aqui é horizonte. E meus olhos, que são desses moleques que gostam de fugir, aqui correm livres.

     Desculpem os ultra sinceros, mas não gosto de olho no olho não. Conversa boa é de olhos que passeiam sem ter onde esbarrar. O pensamento chega e vai embora e o que tem que ficar fica. E pronto!

     Natureza não me faz muito a cabeça também não. Desculpem os naturistas. Eu gosto de concreto, aço e pixação. Gosto da brincadeira entre mato e asfalto, gosto de plantas de prédios e plantas que brotam no meio dos prédios. Gosto de ver gente, de longe. De perto é meio chato.
   
    Hoje me secou a garganta. Tive uma crise alérgica daquelas. Me deram um remédio, que eu deveria lembrar o nome. Como qualquer anti alérgico, me deu muito sono. Eu fui assim, meio dopada, com a cabeça grudada na janela, correndo a cidade plana e alta, nas muitas curvas das estradas. Adormeci acreditando que se eu abrisse a janela e colocasse os braços bem esticados lá fora, conseguiria pegar uma nuvem para mim. Era uma nuvem gigante, tão pertinho como a estrela que eu vi agora.

  Nunca havia reparado no formato das estrelas. É um tapete de pequenas cruzes. Hoje eu achei que uma ia cair no meu colo. Estiquei a língua para sentir o gosto dela. Acho que estrelas são frias. Será que é por causa da música? "Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel" Não sei, mas hoje achei que era gelada, como um sorvete brilhante.


   Aqui eu corro. Tenho certeza que se eu correr muito em linha reta não vou bater em nadinha, nadinha. Entregue ao horizonte eu correria até desaparecer no oco do mundo. E nem eu mesma ia me achar. Meu corpo seria engolido pela linha que separa céu e terra. E eu não seria nem da terra, nem do céu. Eu seria ventania.

Brasília tem esse hábito de me encantar. Belo horizonte.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Feu

Ouvir um som familiar  antes de virar a esquina de casa não é bom agouro.

Mais três minutos até chegar na rua 8. Mais cinco casas até chegar na casa 22. A janela escura demais... A gata gritando no batente, um brilho estranho nos olhos. Onde estavam as cortinas?

Mais dois andares para chegar. A porta. O cheiro.

Vertigem: sensação de oscilação de estabilidade corporal; sensação que dá ideia de que o corpo está girando ao redor de si próprio ou em relação ao que o rodeia, perda momentânea das forças físicas, descontrole. Algo ali estava morto.

O chão, as paredes, o teto. Teto preto, tudo preto. As lâmpadas não iluminavam. A gata branca estava preta.

Fuligem: matéria negra, pulverulenta e espessa, que a fumaça deposita na superfície dos corpos expostos ao contato dela.

A mais tranquila morta. O corpo duro. A macieis pertence aos vivos. Macio ar. Só é macio o que respira. Não sabia.

Tudo ao toque empretecia as peles já negras. O quarto. Vidros estalando debaixo dos pés. A cama cadê? Cortinas cadê? O cheiro de fim. A queda.

Grito: som de voz muito elevado, emitido com esforço, exclamação sonora e forte para chamar alguém, pedir socorro ou exprimir sensação de dor, brado, clamor.


Algo ali, além dela, estava morto. Alguma coisa que não se pode nomear se perdeu.

Desalento... Procurar o que se pode levar. Correr, chorar, esquecer, voltar, dormir, procurar.

Incêndio: Fogo que se propaga e causa estragos. Substantivo masculino.

sábado, 30 de maio de 2015

Dimanche Sourire



Ainda uso a mesma desculpa. "Não posso fazer agora, temos estreia". Antes eu pensava, eu dizia que era minha razão. Dizia que por isso eu respirava. Talvez seja só vaidade e isso é triste. Então eu abri os olhos e desviei do caminhão. "Você quer morrer, sua louca?" "Sim, mas não posso, tenho estreia."  Não, eu não respondi. Eu terminei de atravessar correndo, cabeça baixa, evitando os olhares. "Você está bem, menina?" "Foi sem querer, eu não vi." Não vi porque fechei os olhos e apertei o passo. Não vi porque eu queria morrer sem querer. Não vi porque queria fazer de alguém que não conheço meu assassino e poupar aos que eu conheço da culpa. Eu sou egoísta e mesquinha, eis uma das razões que eu tinha. Mas isso eu não respondi.




quarta-feira, 6 de maio de 2015

poeira imaginária

Era quase um delito. Ele percorria meu corpo sem certeza como se não soubesse onde tocar. Não só. Como se tivesse medo de tocar. Mordia e apertava com toda força como quem não aprendeu a ser suave, como alguém para quem a suavidade não sorriu.

Deixei que o fizesse todas as vezes. Gostava de encontrar as marcas dele nas pernas, entre os seios, na barriga.

Menti sobre a suavidade dele. Houve uma vez, uma única vez...
Nem com a boca, nem com as mãos. Uma marca preta esferográfica. A mais bonita, a mais efêmera.

Não quis apagar. Tinha medo que  a espuma levasse também a expressão terna e contente nos olhos dele e seu brilho amendoado. Contentamento e desejo. Um jeito inocente, quase infantil, de dizer o que estava escrito.   Acho que ele chorou, eu não. Eu não queria molhar aquelas letras.  Temia que se eu apagasse aquelas duas palavras a tarde onde nos debruçamos desmoronaria. Poeira imaginária.

Eu sabia que seria assim. E assim foi. Precisei lavar meu corpo. Pernas. Seios. Barriga... Apagou. E assim foi.

expresso

Tem um "não" queimando minha língua. Tem uma represa na garganta, mais uma vez e outra e outra... Essa estranha familiar certeza.

Se tudo fugisse das cordas da minha garganta eu teria esse ardor aplacado na língua? Eu voltaria a sentir o amargo doce das outras palavras escondidas?  Esse "não" pousado no piso da boca deixaria de inflamar?

terça-feira, 31 de março de 2015

28 então

E então os anos passam levando um pouco da fúria. Então os finais já não dilaceram.
O que fica é um gosto cansado na língua e um toque áspero na cama. Só. Como uma manhã de ressaca. Não dói. Só cansa.
Por fim, começar algo novo e ver algo novo acabar tem o mesmo sabor: ressaca.

como escrever uma biografia apenas com frases de efeito

Quando me prefiro morta minha neblina é luz. Lenta. Me matar aos poucos foi a melhor maneira que encontrei para viver.

Em cada pequena morte me refaço. Só no luto de mim mesma me reconheço.


sábado, 21 de março de 2015

ser 2



Esse silêncio insistente, martelando as paredes do quarto de onde não quer sair.

Do lado de fora o caos chama por ela.
Sento na beira da cama, acaricio seu cabelo. Ela não responde. "Vamos sair daqui, há tanto a fazer. Acorda." 

Eu preciso respirar. Eu ainda quero tentar mais uma vez, pelo menos. Ela apenas me olha e ri das minhas vontades.
Em geral sou eu quem ganha. Eu a levo para dançar, esquecemos nossos atritos. Hoje não.

Ela enfim se levanta, eu sigo seus movimentos. Lenta, olha através de mim e continua andando. Um pano, dois, três. Envolve o pescoço num laço tão forte. Sinto minhas pernas dormentes. "Não faça isso, querida" não sai. O ar já não é o bastante pra articular uma frase. "Vem, vamos voltar pra cama. Estou com sono. Deixamos pra sair amanhã." Ela dorme primeiro, feliz. Eu ainda acordada, me deixo dançar balançando as pernas no ar.