quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Lição 1 - Parte do processo de espetáculo solo


Naquele lugar o céu era cinza, todo dia. De noite e de dia, era cinza. A pele da gente era cinza, o olho da gente era cinza. O fumo de rolo, o cacau, a farinha, o sangue das nossas regras, tudo, tudo, tudo era cinza. Naquele lugar pouca gente tinha menino por muito tempo. A barriga inchava, mas ninguém fazia festa. A mulher gemia baixinho e tinha calada o filho que não ia durar. Foi assim que tive minha menina. Calada. Mas se me calei foi para não afrontar ninguém. Tinha já uns quatro meninos. Nunca perdi um. Dentro do meu silêncio morava a altivez do meu sangue forte, o desaforo para a morte que nunca boliu comigo. Peguei a menina no colo e fiz logo ela chorar. Era para botar os pulmões em alerta de uma vez, que não tardava da morte rondar minha casa. O choro da menina era forte. Aquela saiu a mim!  Era tinhosa! Fiquei com ela no colo até a fábrica abrir.

 Assim que raiou o dia a chaminé começou a cuspir sua fumaceira, o cheiro de cimento não deixava o café perfumar o dia. Naquele lugar os dias não tinham começo e o fim chegava cedo. Fechando correndo a janela, vi sair mais um caixão branco de anjo. Filho de minha irmã, filho de meu primo, filho de minha comadre. Não larguei mais minha menina. A todo o momento olhava o buraquinho do nariz miúdo, soprava, fazia inalação, cercava de vapores, dava banho gelado, provocava com um susto o choro. Brigando dia a dia, mês a mês com a chaminé da fábrica de cimento.

Um dia, exausta, dormi junto com a menina. Não vigiei a soleira da porta, nem a fresta da janela, nem o sapato do marido, nem as unhas dos meninos, nem a poeira de sol, nem a farinha. Abri os olhos com o sobressalto de um coração só batendo no corpo. Vi a morte arrancando a menina dos meus braços.  Soprei, sacudi, apertei no meu corpo o corpinho mole que eu pari calada. Por tanto tempo dei meu sangue e todos os meus alimentos para ela. Dei espaço entre meus órgãos, espremi meu coração para caber o dela em mim. Dei meu leite, dei meu sono, mas não fui capaz de dar o ar da vida. Ela se foi assim, arrastada para longe.  E tudo ficou ao contrário no mundo. Os ponteiros andaram para trás, os meninos jogavam bola com o calcanhar, deu bicho em farinha nova, as baratas subiam as paredes de costas.
Naquele dia o caixão de anjo era meu e ficou plantado no chão sob uma pá de cimento.

(Baseado no relato de Dona Zequinha, minha avó paterna)