Naquele lugar o céu era cinza, todo dia. De noite e
de dia, era cinza. A pele da gente era cinza, o olho da gente era cinza. O fumo
de rolo, o cacau, a farinha, o sangue das nossas regras, tudo, tudo, tudo era
cinza. Naquele lugar pouca gente tinha menino por muito tempo. A barriga
inchava, mas ninguém fazia festa. A mulher gemia baixinho e tinha calada o
filho que não ia durar. Foi assim que tive minha menina. Calada. Mas se me
calei foi para não afrontar ninguém. Tinha já uns quatro meninos. Nunca perdi
um. Dentro do meu silêncio morava a altivez do meu sangue forte, o desaforo
para a morte que nunca boliu comigo. Peguei a menina no colo e fiz logo ela
chorar. Era para botar os pulmões em alerta de uma vez, que não tardava da
morte rondar minha casa. O choro da menina era forte. Aquela saiu a mim! Era tinhosa! Fiquei com ela no colo até a
fábrica abrir.
Assim que
raiou o dia a chaminé começou a cuspir sua fumaceira, o cheiro de cimento não
deixava o café perfumar o dia. Naquele lugar os dias não tinham começo e o fim
chegava cedo. Fechando correndo a janela, vi sair mais um caixão branco de
anjo. Filho de minha irmã, filho de meu primo, filho de minha comadre. Não
larguei mais minha menina. A todo o momento olhava o buraquinho do nariz miúdo,
soprava, fazia inalação, cercava de vapores, dava banho gelado, provocava com
um susto o choro. Brigando dia a dia, mês a mês com a chaminé da fábrica de
cimento.
Um dia, exausta, dormi junto com a menina. Não
vigiei a soleira da porta, nem a fresta da janela, nem o sapato do marido, nem
as unhas dos meninos, nem a poeira de sol, nem a farinha. Abri os olhos com o
sobressalto de um coração só batendo no corpo. Vi a morte arrancando a menina
dos meus braços. Soprei, sacudi, apertei
no meu corpo o corpinho mole que eu pari calada. Por tanto tempo dei meu sangue
e todos os meus alimentos para ela. Dei espaço entre meus órgãos, espremi meu
coração para caber o dela em mim. Dei meu leite, dei meu sono, mas não fui
capaz de dar o ar da vida. Ela se foi assim, arrastada para longe. E tudo ficou ao contrário no mundo. Os
ponteiros andaram para trás, os meninos jogavam bola com o calcanhar, deu bicho
em farinha nova, as baratas subiam as paredes de costas.
Naquele dia o caixão de anjo era meu e ficou
plantado no chão sob uma pá de cimento.
(Baseado no relato de Dona Zequinha, minha avó
paterna)