sábado, 30 de julho de 2011

remoção a laser

Caminha só, olhos no chão. Chuta pedras e pés. Tropeça. Olhos no chão. Não sente frio, não tem fome. Não tem mais nada. Segue seco, garganta entalada em nó. Não sente raiva, não sente. Sabe que vai doer. Aguenta. Não pensa. Caminha. Olhos no chão. Abre a porta. Não faz barulho. Não se arrepende, não hesita. Sabe o que tem que fazer.Sobe as escadas. Já é hora. Abre a camisa. Aponta o peito. Pede: “Apaga.”

Entra

Ela me olha como quem quer pedir perdão por algo que ainda vai fazer. Se deita e procura minha mão. Eu quero. Ela aperta meus dedos e dói, mas ela não sabe. Não deixa que eu saia. Eu não quero sair. Ela deixa que eu faça o que ela quer e eu finjo que não sei aonde quer chegar. Está entregue e é tão bonito quando chora de prazer e de medo que eu vá embora. Não temos pressa, só urgência. Me interroga, investiga meus sentidos. Deixa fugir só para ir buscar. Entra. Fica. Prova. Mostra o sabor que tem. É bom, mas dopa e vicia. Eu sou mesmo dada aos vícios. Quero o excesso até que não sobre mais nada. Faço da tua carne língua.  Faço o melhor. Vejo o desenho das formas que projeta arqueando a coluna. Quantas cores a pele dela ganha quando a luz brinca de se esconder no seu umbigo!  

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Uma e Outra

Uma falava sobre coisas que a Outra nunca tinha ouvido e falava com tamanha propriedade que tudo parecia verdade. Verdade? Talvez nem tanto... Mas era tão atraente essa eloquência. A Outra não tinha nada além de seus sonhos tolos e pueris. E sonhava tanto e tão alto que contagiava até os mais céticos do bando. Talvez não contagiasse tanto... Mas era tão atraente seu entusiasmo. Uma não tinha ninguém. Outra não tinha nada. E ninguém tinha nada a perder. Tudo certo. Outra aprendeu os segredos que Uma ensinava. Uma ria mais do que nunca na vida. Até o dia em que as dúvidas nasceram. E se Uma tivesse outra e se Outra fosse só mais uma? E o fim a gente nunca vai saber.

Caminho só


E de mim que não sobrou nada, nada se fez. Ali fiquei por horas, tantas, e nada se fez. Foi-se embora o Sol, caíram estrelas e nada de mim se fez.  Nada sobrou, nem um lamento. E por fim se apagou o resto do que não ficou, com a chuva se apagou aquilo que por horas permaneceu sendo nada.

Marcas

Eu olhava demoradamente para ela na cozinha. Nua, talvez com frio, pele tão branca, boca vermelha da minha. Dava para ver que eu estive nela pelo modo como andava, pelo rubor do rosto e dos mamilos, pelas marcas de dedos, pelo cheiro. Ela também esteve em mim. Procurei suas marcas. Eu não fico vermelha. Nada. A não ser um cheiro forte agridoce e a respiração ligeiramente ofegante. Assim nós somos. Eu lhe deixo marcas pelo corpo, ela me deixa tatuagens pelos pensamentos.