quarta-feira, 16 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Constatações
Hoje eu acordei feliz por perceber que já não te amo. Senti a leveza de não ter sonhado com seus beijos, não acordar te procurando na cama, não escutar a água do seu banho escorregar no chão. Hoje me senti livre por não pensar em você, aliás fiquei o dia todo pensando em como é bom não pensar em você e neste teu cheiro excitante de fruta. Eu não pensei em você. Eu não falei de você. Só estou falando agora para que fique bem claro que eu não te amo mais... Porque quando eu te amava os dias eram bem menos chuvosos, eram bonitos mesmo. Mas isso já passou, prefiro a verdade dos dias nublados a essa mentira luminosa e quente dos amantíssimos dias de sol. Eu não te amo mais. Que bom! Não preciso saber o que você está fazendo, se está pensando em mim... Está? Não importa, porque eu não te amo mais!
Hoje eu vi você na rua, rindo e balançando os cabelos. Eu não senti nada, nada por você! Que ótima a sensação de perceber que o brilho aveludado da sua pele já não me causa alvoroço no umbigo. O abrir e fechar dessa sua boca carnuda me é indiferente, como se eu nunca a tivesse beijado, como se eu não soubesse o sabor e a temperatura que tem. Pude até ouvir sua voz. Do lugar onde eu estava pude ouvir o som das palavras: Então... até... mais... tarde. Essa voz já não me é familiar, já não aquece meus ouvidos, não desperta nenhum desejo. Sabe por quê? Eu não amo mais você e não quero saber mais tarde onde, nem mais tarde com quem, nem mais tarde com que roupa, nem me importa que mais tarde vire amanhã de manhã. Não, eu não quero saber. Já não me importa.
Hoje eu quis te procurar, só para ver que esqueci você. Só para te mostrar o meu olhar frio e vazio. Quis que
sentisse a dor de perceber que eu já não sinto nada por você. Quis te mostrar meu corpo, mostrar que estou mais em forma do que quando me viu pela última vez. Quis que visse meu novo corte de cabelo e as roupas novas que me dei. Fingi um encontro casual, num bar entre os amigos. Caprichei nas gargalhadas. Eu venci! Te provei que não penso em você nem mais um minuto, que não preciso de você para nada, provei que não me importo. Eu já te esqueci. E mesmo que você finja não me ver, mesmo que faça essa patética cena de total indiferença, eu quero que saiba que eu não te amo mais, eu não te amo mais, eu não te amo mais. Pronto!
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Deuses e astronautas
Pobres homens, sempre tão confusos! Não sabem que não tem escolha. Sempre tão arrogantes a ponto de não se darem ao trabalho de notar que não existem. Se entopem de comida, se encharcam de álcool, meditam, rezam, ateiam fogo em seus corpos imundos, falam, falam, falam e correm. Correm demais. Correm para onde? Criam filosofias, deuses, matemáticas e leis e acreditam nisso tudo! Pobres homens... Tão pequeninos e indefesos se acreditando geniais! São divertidos até, para quem os vê de longe sem sentir seu cheiro. Acham que nos importamos. Olhem só para eles. Ai, ai! Pobres homens...
sábado, 15 de outubro de 2011
Logo existo?
Sou negra, logo gostosa.
Sou negra, logo favelada.
Sou negra, logo sei sambar.
Sou negra, logo pobre coitada.
Sou negra, logo sua empregada.
Sou negra, logo não sirvo para apresentar à sua mãe.
Sou negra, logo sou suspeita.
Sou suspeita, logo culpada.
Sou negra, logo favelada.
Sou negra, logo sei sambar.
Sou negra, logo pobre coitada.
Sou negra, logo sua empregada.
Sou negra, logo não sirvo para apresentar à sua mãe.
Sou negra, logo sou suspeita.
Sou suspeita, logo culpada.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Em primeira pessoa
Alguma coisa dentro de mim está quebrada. Alguma coisa em mim não quer voltar para o lugar. Eu tranquei todas as portas, verifiquei cada canto e no escuro tateei cada palmo do meu vazio até ter a certeza de que não havia nada, não havia ninguém escondido. Limpei todas as ervas daninhas que cresciam a sufocar meu frágil coração. Tirei as cinzas do tempo que perdi e o pó que foi se acumulando no vão das coisas esquecidas. Cultivei só para mim canteiros dos mais belos sonhos. Cozinhei ideias deliciosas e o cheiro apetitoso delas se espalhou por toda parte até se esvair no fundo dos meus pulmões enfumaçados. Deixei tudo limpo e arrumado e fui descansar. De tão exausta fechei os olhos e abri a boca. Meus músculos se quedaram moles. Esqueci de tudo... Até que alguém forçou a entrada. Não sei se foi pelas narinas, pela boca, pelos ouvidos ou mesmo se pelos olhos que pensei ter fechado. Arrombou um pouco a porta nessa entrada desajeitada, foi se instalando sorrateiramente nos cantos onde eu não alcançava. Revirou minhas ideias e se deitou do meu canteiro. Ficou o tempo que quis e sem poder fazer muita coisa fui me acostumando a ser sua senhoria, sua hospedeira. Com os pés cheios de lama dançou no peito até não mais poder. Comeu de mim a carne, lambeu-me os ossos, banhou-se no meu sangue, dormiu entre meus seios. De repente levantou-se e apressadamente foi pisando tudo, tudo que encontrava. De todo tempo que eu tinha fez uma enorme fogueira. Jogou poeira nas minhas ideias. Na saída arrancou as maçanetas, quebrou a porta mais firme que havia. Na pressa de ir embora destruiu meus canteiros, pisou na grama verdinha e tão fresca com seus pés de coturno e salto agulha. Sumiu no lado de fora. Limpei tudo de novo. Mas algo em mim está quebrado. Algo em mim não vai mais voltar para o lugar.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
25
-Hoje eu só queria ser uma pedra...
-Nossa! Por quê?
-Pedras são silenciosas, quietas.
-Mas para quê servem as pedras?
- Mas para quê servem as pessoas?
-Pessoas servem pra gente amar, brincar, conversar...
-Aí as pessoas morrem ou vão embora e a gente faz isso com outras pessoas ou com animais ou plantas!
-É...
-Então para quê servem as pedras? Para quê servem as pessoas? A diferença é o silêncio.
-Nossa! Por quê?
-Pedras são silenciosas, quietas.
-Mas para quê servem as pedras?
- Mas para quê servem as pessoas?
-Pessoas servem pra gente amar, brincar, conversar...
-Aí as pessoas morrem ou vão embora e a gente faz isso com outras pessoas ou com animais ou plantas!
-É...
-Então para quê servem as pedras? Para quê servem as pessoas? A diferença é o silêncio.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Gota à gota
E quando todas as possibilidades se esgotam você me chega ligeira e gelada. Não gosto que os outros vejam você, mas quem é que te consegue segurar por muito tempo? Rola, preta de rímel. Vai embora e como tudo que eu tive não volta...
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Ah, meu bem... diga que me ama, só por um instante, só até eu me esquecer que é mentira.
sábado, 30 de julho de 2011
remoção a laser
Caminha só, olhos no chão. Chuta pedras e pés. Tropeça. Olhos no chão. Não sente frio, não tem fome. Não tem mais nada. Segue seco, garganta entalada em nó. Não sente raiva, não sente. Sabe que vai doer. Aguenta. Não pensa. Caminha. Olhos no chão. Abre a porta. Não faz barulho. Não se arrepende, não hesita. Sabe o que tem que fazer.Sobe as escadas. Já é hora. Abre a camisa. Aponta o peito. Pede: “Apaga.”
Entra
Ela me olha como quem quer pedir perdão por algo que ainda vai fazer. Se deita e procura minha mão. Eu quero. Ela aperta meus dedos e dói, mas ela não sabe. Não deixa que eu saia. Eu não quero sair. Ela deixa que eu faça o que ela quer e eu finjo que não sei aonde quer chegar. Está entregue e é tão bonito quando chora de prazer e de medo que eu vá embora. Não temos pressa, só urgência. Me interroga, investiga meus sentidos. Deixa fugir só para ir buscar. Entra. Fica. Prova. Mostra o sabor que tem. É bom, mas dopa e vicia. Eu sou mesmo dada aos vícios. Quero o excesso até que não sobre mais nada. Faço da tua carne língua. Faço o melhor. Vejo o desenho das formas que projeta arqueando a coluna. Quantas cores a pele dela ganha quando a luz brinca de se esconder no seu umbigo!
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Uma e Outra
Uma falava sobre coisas que a Outra nunca tinha ouvido e falava com tamanha propriedade que tudo parecia verdade. Verdade? Talvez nem tanto... Mas era tão atraente essa eloquência. A Outra não tinha nada além de seus sonhos tolos e pueris. E sonhava tanto e tão alto que contagiava até os mais céticos do bando. Talvez não contagiasse tanto... Mas era tão atraente seu entusiasmo. Uma não tinha ninguém. Outra não tinha nada. E ninguém tinha nada a perder. Tudo certo. Outra aprendeu os segredos que Uma ensinava. Uma ria mais do que nunca na vida. Até o dia em que as dúvidas nasceram. E se Uma tivesse outra e se Outra fosse só mais uma? E o fim a gente nunca vai saber.
Caminho só
E de mim que não sobrou nada, nada se fez. Ali fiquei por horas, tantas, e nada se fez. Foi-se embora o Sol, caíram estrelas e nada de mim se fez. Nada sobrou, nem um lamento. E por fim se apagou o resto do que não ficou, com a chuva se apagou aquilo que por horas permaneceu sendo nada.
Marcas
Eu olhava demoradamente para ela na cozinha. Nua, talvez com frio, pele tão branca, boca vermelha da minha. Dava para ver que eu estive nela pelo modo como andava, pelo rubor do rosto e dos mamilos, pelas marcas de dedos, pelo cheiro. Ela também esteve em mim. Procurei suas marcas. Eu não fico vermelha. Nada. A não ser um cheiro forte agridoce e a respiração ligeiramente ofegante. Assim nós somos. Eu lhe deixo marcas pelo corpo, ela me deixa tatuagens pelos pensamentos.
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