terça-feira, 24 de janeiro de 2012

domingo, 22 de janeiro de 2012

Soterrada

Primeiro  lhe tiraram  a vista que a varandinha apontava. Construíram enormes muros de concreto frio. Cercaram o sol e a luz não escorregava mais para dentro.Foi-se embora na carona dos tratores o calorzinho da manhã. Tratou de vestir um casaquinho. Devagar o mofo tomou conta de tudo, empretecendo as paredes. Depois ergueram os gigantes, de um lado e de outro. A poeira não tinha mais para onde ir e foi ficando por ali. Não teve forças para tirar. O lar de paredes pretas foi ficando sem ar. Sem luz, sem ar, sem ter o que ver na tardinha serena, morreu de morte matada, mas no papel timbrado e carimbado as causas eram naturais.
Hoje eu não soube esquecer...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Aguerê

Quando danço tudo em mim volta para o lugar. Tudo que era turvo se torna claro, tudo se alinha. Quando eu danço sou minha. Minhas dores, meus odores, meus olhares, minha sina, minha alegria. Tudo sou eu. Tudo em mim é meu!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Constatações

Hoje eu acordei feliz por perceber que já não te amo. Senti a leveza de não ter sonhado com seus beijos, não acordar te procurando na cama, não escutar a água do seu banho escorregar no chão. Hoje me senti livre por não pensar em você, aliás fiquei o dia todo pensando em como é bom não pensar em você e neste teu cheiro excitante de fruta. Eu não pensei em você. Eu não falei de você. Só estou falando agora para que fique bem claro que eu não te amo mais... Porque quando eu te amava os dias eram bem menos chuvosos, eram bonitos mesmo. Mas isso já passou, prefiro a verdade dos dias nublados a essa mentira luminosa e quente dos amantíssimos dias de sol. Eu não te amo mais. Que bom! Não preciso saber o que você está fazendo, se está pensando em mim... Está? Não importa, porque eu não te amo mais!

Hoje eu vi você na rua, rindo e balançando os cabelos. Eu não senti nada, nada por você! Que ótima a sensação de perceber que o brilho aveludado da sua pele já não me causa alvoroço no umbigo. O abrir e fechar dessa sua boca carnuda me é indiferente, como se eu nunca a tivesse beijado, como se eu não soubesse o sabor e a temperatura que tem.  Pude até ouvir sua voz. Do lugar onde eu estava pude ouvir o som das palavras: Então... até... mais... tarde. Essa voz já não me é familiar, já não aquece meus ouvidos, não desperta nenhum desejo. Sabe por quê? Eu não amo mais você e não quero saber mais tarde onde, nem mais tarde com quem, nem mais tarde com que roupa, nem me importa que mais tarde vire amanhã de manhã. Não, eu não quero saber. Já não me importa.

Hoje eu quis te procurar, só para ver que esqueci você. Só para te mostrar o meu olhar frio e vazio. Quis que
 sentisse a dor de perceber que eu já não sinto nada por você. Quis te mostrar meu corpo, mostrar que estou mais em forma do que quando me viu pela última vez. Quis que visse meu novo corte de cabelo e as roupas novas que me dei. Fingi um encontro casual, num bar entre os amigos. Caprichei nas gargalhadas. Eu venci! Te provei que não penso em você nem mais um minuto, que não preciso de você para nada, provei que não me importo. Eu já te esqueci. E mesmo que você finja não me ver, mesmo que faça essa patética cena de total indiferença, eu quero que saiba que eu não te amo mais, eu não te amo mais, eu não te amo mais. Pronto!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Deuses e astronautas

Pobres homens, sempre tão confusos! Não sabem que não tem escolha. Sempre tão arrogantes a ponto de não se darem ao trabalho de notar que não existem. Se entopem de comida, se encharcam de álcool, meditam, rezam, ateiam fogo em seus corpos imundos, falam, falam, falam e correm. Correm demais. Correm para onde? Criam filosofias, deuses, matemáticas e leis e acreditam nisso tudo! Pobres homens... Tão pequeninos e indefesos se acreditando geniais! São divertidos até, para quem os vê de longe sem sentir seu cheiro. Acham que nos importamos. Olhem só para eles.  Ai, ai! Pobres  homens...

sábado, 15 de outubro de 2011

Logo existo?

Sou negra, logo gostosa.
Sou negra, logo favelada.
Sou negra, logo sei sambar.
Sou negra, logo pobre coitada.
Sou negra, logo sua empregada.
Sou negra, logo não sirvo para apresentar à sua mãe.
Sou negra, logo sou suspeita.
Sou suspeita, logo culpada.